O Medo dos Olhares

Os olhos são o espelho da alma. Pessoalmente temo o olhar humano. Ao olhar alguém nos olhos sinto como se soubessem o que estou pensando, sinto como se invadissem a minha privacidade, sinto uma espécie de medo. Não é sempre, há pessoas com as quais consigo olhar nos olhos, mas o contato dura pouco. Pergunto-me, o que um órgão ocular tem de tão especial para causar esse rebuliço mental.

Apesar de sentir o que sinto, vejo beleza no olhar humano. Posso traçar um paralelo com a obra o Senhor dos Anéis. Na obra, o olho de Sauron observa incessantemente a Terra Média em busca d'O Um Anel, um artefato mágico. Apesar do olhar do Necromante causar medo nos heróis e apreciadores da obra, é inegável sua beleza flamejante. Talvez admitir que todos vejam beleza no olhar de Sauron seja forçar a barra, mas creio que ilustra o que sinto.



                                        Resultado de imagem para olho de sauron


O ritual de fotografia, costumeiramente requer que o olhar do fotografado se volte para a lente da câmera, poses e sorrisos são opcionais. Para mim, tais fotos são antinaturais. Quero dizer, o costume manda olhar em direção a lente e sorrir. Não se age assim, normalmente. Vejo beleza na naturalidade do olhar. Uma pessoa com um olhar melacólico desperta tamanha curiosidade que não consigo parar de olhar. O olhar concentrado, desperta fascinação. O olhar de supresa e alegria, despertam entusiasmo. Nessas situações em que sou mero observador, fico calmo ao mesmo tempo eufórico, como se o ato de observar me tornasse o mais digno dos seres, sinto-me grato por testemunhar tal fenômeno, fenômeno esse que dura um instante. Quando o olhar se dirige a mim, quando sou o receptor dessa beleza, vem o medo, como se pudessem ler meus pensamentos, como se não fosse digno de receber o olhar da natureza.



O ato de me fitarem, me desconstrói. De modo, que não sei agir com segurança, não sei o que dizer, me perco no que estava dizendo, preciso me concentrar muito. Um sufoco! Preciso resolver essa questão com um terapeuta. Eu preciso viver, é uma etapa que todos precisam passar para encontrar com a morte. Nesse processo, é preciso enfrentar as dificuldades como um hooligan enfurecido.

Dos tipos de olhares que eu mais acho atrativos, está o olhar de peixe morto. Também conhecido como olhos de cigana ou olhos de ressaca. Não sei como eu poderia explicar o fenômeno, o olhar de peixe morto é como se alguém estivesse cansado. Mas não está. É como um constante olhar melancólico, até mesmo quando o dono do olhar sorri. É tão bonito! Talvez isso se deva à minha ansiedade, tenho medo de muitas pessoas. As pessoas com olhar de peixe morto representam constante calma em seu semblante, no fundo talvez eu deseje ter esse tipo de pessoa por perto, pessoas que anulem uma parte da minha ansiedade ao ter que interagir com humanos.




Ao ler Dom Casmurro, no ensino médio, as passagens que falavam do olhar de Capitu ficaram mais presentes em minha memória. Por vezes, a imagem lasciva dos olhos de Capitu permeia meus pensamentos pervertidos. Bem sei que é uma personagem criada num romance antigo, o qual ninguém gosta de ler porque é obrigado pelos professores, mas permanece atual esse arquétipo da mulher autêntica, valente, misteriosa e indescifrável. Você traiu, Capitu? Nunca saberei.Seu olhar é indecifrável. Na minha mente, Capitu traiu! Consumou o ato não só com Escobar, mas com Sancha também. Sei que é pecado pensar essas coisas, mas não posso evitar, meu bom Deus. Quantas Capitus não encontrei nessas duas décadas? Olhares calmos, misteriosos. Não consigo me comunicar com as Capitus, talvez isto seja uma das minhas frustrações. Depois de atingir a casa dos 20 anos, percebo que me tornei um MADAO, talvez um Übermensch contemporâneo. Pretendo fazer um texto sobre o termo MADAO oriundo da filosofia japonesa.






O próprio Machado tinha olhar de peixe morto.



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